Amor, traumas e repetições: como romper padrões em relacionamentos?
- isadora delfino
- 27 de fev. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 11 de nov. de 2025

Ilustração feita pela artista María Medem.
Os nossos relacionamentos são como espelhos. Neles, nos vemos com mais nitidez, não apenas na luz suave dos momentos bons, mas também nas sombras que revelam nossas dores e memórias mais profundas. Muitas vezes, o que interpretamos como destino ou coincidência é, na verdade, a repetição de padrões emocionais que carregamos desde a infância - marcas de experiências passadas, percepções inconscientes e feridas que, mesmo sem percebermos, orientam nossas ações, comportamentos e escolhas afetivas.
Por que algumas relações podem nos machucar tanto? Por que, em certos momentos, nos sentimos inseguros, inadequados ou insuficientes ao amar e ser amado? A resposta pode estar nas histórias que trazemos conosco sobre o amor. Os vínculos criados ao longo da vida, a maneira como aprendemos a receber e oferecer afeto e os traumas e valores que assimilamos, deixam rastros no nosso modo de agir e se relacionar. Muitas vezes, sem sequer dar conta, buscamos a repetição daquilo que nos é familiar - mesmo que isso signifique reviver dores e padrões de comportamento que deveríamos ter elaborado e transformado.
Por outro lado, é importante destacar que nossos traumas e padrões de comportamento não são uma sentença, uma vez que podem ser alterados conforme transformamos nossas ações, aprendemos sobre nós mesmos e identificamos o que está por trás daquilo que se repete.
A psicoterapia nos ajuda a decifrar esses padrões, a reconhecer quais dinâmicas são heranças emocionais e quais pertencem ao passado, manifestam-se no presente e orientam nosso futuro. No processo terapêutico, aprendemos que o amor não precisa ser uma luta constante, e pode ir além do medo do abandono, da busca por validação, do preenchimento de vazios e das repetições de traumas emocionais. Na clínica, podemos construir relações mais conscientes e seguras conforme nos percebemos com mais afeto e consideração.
Frequentemente, nutrimos uma percepção irreal e idealizada do amor romântico, entendo-o como algo perfeito, inalcançável e absoluto que vai preencher todos os vazios e lacunas que trazemos conosco. Deixamos de perceber nossas dores e faltas, e não entendemos como acolher as do outro, dada a dificuldade de fazermos isso por nós mesmos.
Amar é um exercício de autoconhecimento, uma jornada onde, ao olhar para o outro, aprendemos a nos ver de forma mais autêntica e generosa também. Em “Tudo sobre o amor” (2000), bell hooks aborda como amor se faz justamente na capacidade de cada um de refletir sobre suas ações, emoções e comportamentos e compartilhar com o outro, acolhendo nossos erros e limitações, juntamente com as dores e fraquezas do outro.
Honestidade, abertura e acolhimento são essenciais para uma comunicação consciente e eficaz no campo afetivo, ainda assim, temos medo. Muito medo. Medo de se abrir e se revelar ao outro em nossa crueza mais íntima, de permitir o acesso à nossa vulnerabilidade, medo de não dar conta do outro em sua concretude de luzes e sombras, medo de perder as ilusões que idealizamos sobre nós mesmos, o outro e o amor.
Nesse sentido, hooks afirma que “escolher ser totalmente honesto e revelar quem somos é arriscado. A experiência do amor verdadeiro nos dá coragem para arriscar. Enquanto tivermos medo de arriscar, não poderemos conhecer o amor” (hooks, 2000, p.185).
Para a autora, quando nos comprometemos com o amor verdadeiro assumimos o compromisso com a mudança, escolhemos a transformação através de um acordo mútuo, que busca revelar a nós mesmos e acolher ao outro que se mostra. É preciso ter coragem para assumir os riscos e se comprometer com a transformação que se opera em nossas profundezas quando estamos em contato com o outro.
O amor exige coragem: de se revelar, de se transformar, de permanecer. Ele acontece na reciprocidade, no diálogo e na aceitação, do outro, de si, e do que nasce nessa troca.
Mas, quando nos comprometemos com o amor verdadeiro, assumimos o compromisso de sermos transformados, de sermos impactados pelo outro de uma maneira que nos permite nos tornar mais plenamente realizados. Esse compromisso com a mudança é uma escolha, que acontece por meio de um acordo mútuo.





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